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Pizza Margherita: qual é a verdadeira história da pizza e da rainha italiana?

Pizza Margherita: nasceu mesmo em homenagem à rainha da Itália?


É difícil olhar para o cardápio de uma pizzaria no Brasil ou na Itália e não encontrar a famosa Pizza Margherita. Tomate, mozzarella e manjericão formam uma combinação que se tornou um dos grandes símbolos da cozinha napolitana.

A tradição conta que a pizza recebeu esse nome em 1889, depois de ser servida à rainha Margherita di Savoia durante uma visita a Nápoles. A história é ótima — mas a documentação histórica mostra que a combinação de ingredientes já existia antes e que alguns detalhes do famoso episódio de 1889 são hoje questionados.

Então, o que sabemos sobre a rainha, a pizza e a lenda que uniu as duas?


A Rainha Margherita

A jovem Margherita com seu irmão mais novo, Tommaso, e seus tutores no século XIX

A jovem Margherita com seu irmão mais novo, Tommaso, e seus tutores no século XIX

Margherita Maria Teresa Giovanna di Savoia nasceu em 20 de novembro de 1851, no Palazzo Chiablese, em Turim, no atual Piemonte. Era filha de Ferdinando di Savoia, Duque de Gênova, e de Maria Elisabetta da Saxônia.

Margherita era sobrinha de Vittorio Emanuele II, que em 1861 se tornou o primeiro rei da Itália unificada. Ela tinha apenas nove anos naquele momento e, portanto, não participou diretamente do processo de unificação. Seu papel público ganharia importância alguns anos depois, como integrante da nova monarquia italiana.

Em 1868, aos 16 anos, casou-se com seu primo Umberto di Savoia, príncipe herdeiro e futuro rei Umberto I.

Uma figura pública da nova monarquia italiana


O casamento tinha evidente importância dinástica, mas Margherita rapidamente assumiu também uma função pública. Em uma Itália recém-unificada, a família real precisava construir uma imagem comum diante de populações com identidades locais muito fortes.

Viagens, cerimônias, iniciativas culturais e aparições públicas transformaram Margherita em uma das figuras mais reconhecidas da Casa de Savoia.

Margherita di Savoia em uma foto de 1868, ano de seu casamento. Ao lado, a princesa a cavalo no Castelo Real de Racconigi

Margherita di Savoia em uma foto de 1868, ano de seu casamento. Ao lado, a princesa a cavalo no Castelo Real de Racconigi

Margherita recebeu uma formação ampla para os padrões da corte da época e cultivou interesses por literatura, música e artes.

Durante suas viagens pela península, procurava demonstrar atenção às tradições das diferentes regiões e construiu uma imagem de proximidade com o público. Sua popularidade cresceu a ponto de escritores, artistas, produtos e costumes passarem a ser associados ao seu nome.

Essa enorme projeção pública ajuda a entender por que uma história envolvendo a rainha e um prato popular napolitano teria tanta força no imaginário italiano.

A celebração do casamento de Margherita e Umberto na catedral de San Giovanni de Turim. À direita, Margherita e Umberto durante sua estada em Nápoles.

A celebração do casamento de Margherita e Umberto na catedral de San Giovanni de Turim. À direita, Margherita e Umberto durante sua estada em Nápoles.

Da princesa à rainha


Em 1878, com a morte de Vittorio Emanuele II, Umberto I tornou-se rei e Margherita tornou-se a primeira rainha consorte do Reino da Itália unificada.

Como rainha, ela continuou participando intensamente da vida pública, apoiando iniciativas culturais e atividades beneficentes. Ao mesmo tempo, era uma figura de convicções conservadoras e profundamente ligada à monarquia.

Sua popularidade foi tão grande que se desenvolveu no fim do século XIX uma verdadeira moda em torno de seu nome — fenômeno que chegou a ser chamado de margheritismo. Essa dimensão simbólica da rainha é importante para compreender como seu nome pôde ficar definitivamente ligado a uma das pizzas mais famosas do mundo.

Mas afinal: a Pizza Margherita foi realmente inventada para a rainha?

A resposta mais segura é: a pizza com esses ingredientes já existia antes da famosa história de 1889.

A combinação hoje associada à Margherita é simples e marcante: tomate, mozzarella, manjericão e azeite. As cores vermelho, branco e verde também ajudaram a reforçar, posteriormente, sua associação com a bandeira italiana.

A pizza já existia antes de 1889


Nápoles possuía uma cultura de pizza muito antes da visita real que se tornaria famosa. Ao longo do século XIX já aparecem descrições de pizzas com diferentes coberturas e combinações de ingredientes.

Uma referência especialmente importante aparece em 1853, quando Emanuele Rocco descreveu, na obra Usi e costumi di Napoli e contorni descritti e dipinti, pizzas preparadas com ingredientes que incluíam manjericão, mozzarella e tomate.

Ou seja: mais de três décadas antes da suposta homenagem à rainha Margherita, os elementos básicos da pizza que hoje leva seu nome já faziam parte da tradição napolitana.

A famosa história de 1889


Segundo a versão tradicional, em 1889 o rei Umberto I e a rainha Margherita estavam em Nápoles e Raffaele Esposito, um conhecido pizzaiolo da cidade, teria sido chamado para preparar pizzas para o casal real.

Uma delas teria sido feita com tomate, mozzarella e manjericão — vermelho, branco e verde, as cores da bandeira italiana. A narrativa conta ainda que a rainha teria demonstrado preferência por essa combinação e que Esposito passou a chamá-la de Pizza Margherita em sua homenagem.

A antiga pizzaria ligada a Esposito é hoje conhecida como Pizzeria Brandi e mantém viva essa tradição em Nápoles.

Pizzeria Brandi, em Nápoles, onde uma placa celebra a tradição da Pizza Margherita

Pizzeria Brandi, em Nápoles. Uma placa instalada no local celebra a tradição que associa a pizzaria à Pizza Margherita.

História, tradição e uma possível falsificação


A versão de 1889 é repetida há décadas, mas pesquisadores encontraram problemas importantes na história.

Além de a combinação de tomate, mozzarella e manjericão já estar documentada muito antes da visita real, não foi localizado um registro contemporâneo do episódio da pizzaria nas fontes oficiais e locais normalmente esperadas. A famosa carta atribuída a Camillo Galli, funcionário da Casa Real, agradecendo a Raffaele Esposito pelas pizzas também passou a ser questionada após comparações com documentos autênticos de sua autoria.

Outro detalhe chamou a atenção dos pesquisadores: a carta se dirige a Raffaele Esposito Brandi, embora Brandi fosse o sobrenome de sua esposa. Décadas depois, em 1932, os sobrinhos dela, Giovanni e Pasquale Brandi, assumiram o estabelecimento e passaram a usar o nome Pizzeria Brandi. Uma das hipóteses históricas é que o documento tenha surgido nesse contexto como uma forma de promover a pizzaria.

Isso não significa que todos os elementos da narrativa sejam necessariamente falsos. Umberto e Margherita estavam em Nápoles naquele período, Esposito era realmente um pizzaiolo conhecido e a associação entre a pizza tricolor e a rainha tornou-se parte duradoura da cultura italiana.

O que podemos afirmar com segurança é que Raffaele Esposito não inventou em 1889 a combinação de tomate, mozzarella e manjericão. A grande história da Pizza Margherita parece ser menos a criação de uma receita e mais a criação — espontânea ou cuidadosamente construída — de um símbolo.

E talvez seja justamente isso que tornou a lenda tão resistente: uma pizza napolitana, as cores da Itália e uma rainha extremamente popular formavam uma história boa demais para ser esquecida.

História ou lenda, a Pizza Margherita atravessou fronteiras e se tornou um dos grandes símbolos da gastronomia italiana. Para mais histórias sobre cultura, genealogia e cidadania, acompanhe o Cadê Minha Certidão.

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